quinta-feira, 10 de março de 2011

Bukowski

Dia 09/03/94 foi a data da morte do velho safado Bukowski!
Eu tenho muitos livros dele em casa, já li quase todos que existem, mas os poemas eu achei na internet. Um deles é esse:

Se vai tentar
siga em frente.

Senão, nem começe!
Isso pode significar perder namoradas
esposas, família, trabalho...e talvez a cabeça.

Pode significar ficar sem comer por dias,
Pode significar congelar em um parque,
Pode significar cadeia,
Pode significar caçoadas, desolação...

A desolação é o presente
O resto é uma prova de sua paciência,
do quanto realmente quis fazer
E farei, apesar do menosprezo
E será melhor que qualquer coisa que possa imaginar.

Se vai tentar,
Vá em frente.
Não há outro sentimento como este
Ficará sozinho com os Deuses
E as noites serão quentes
Levará a vida com um sorriso perfeito
É a única coisa que vale a pena.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Quinquilharias do antigo blog parte IV

Descobri que tem gente que lê isso aqui e que gosta! hahaha
Por isso mais um dos antigos, da mesma época do outro e a mesma coisa de sempre.







Cinema mudo


"Amor sem palavras, cinema mudo.”


Ela chegou na festa, calça branca de um tecido leve , uma blusa azul e casaco jeans, que davam um ar de descontração. Procurou o lugar menos iluminado do salão, puxou uma cadeira, debruçou-se na mesa e alguém lhe deu um copo cheio de cerveja. Bebeu o primeiro gole, a bebida parecia entrar em seu intimo que resfriava seu corpo provocando arrepios, mas ela gostava da sensação. Naquela noite tudo o que ela queria eram novas sensações, estava à procura de alguma coisa, mas não sabia bem o que procurava.
Sempre foi muito comunicativa, gostava de estar com os amigos batendo papo, só que ultimamente ela não andava nem um pouco entusiasmada para isso. As pessoas chegavam perto da mesa e puxavam assuntos supérfluos como, a vida alheia, faculdade, festas, mas ela apenas respondia por educação com um sim ou não, e às vezes um, pois é. Talvez fosse tristeza, ansiedade por alguma coisa que não sabia o que, ou apenas vontade de submergir, ali mesmo naquela cadeira e esquecer todos os assuntos desinteressantes que estavam sendo sussurrados aos seus ouvidos. Na verdade estava cansada com o modo em que levava sua vida, desatenta com a vida de seus amigos e desleixada consigo mesma. Ela queria sentir-se completa, mas alguma coisa impedia que isso acontecesse. Tentava se convencer que era apenas uma neurose boba que passaria assim que bebesse mais umas cervejas e se integrasse ao pessoal, que dançava no meio do salão, um rock antigo que não permitia que alguém ficasse parado.

Continuou a beber, quando menos esperava foi tirada para dançar.

Ele era um rapaz alto, moreno, vestia calças jeans rasgadas e uma camiseta verde, não usava nem óculos ou chapéu. Não conhecia muitas pessoas na festa, nem sabia como havia parado lá. Era mais um desses garotos quietos que aparecem nas festas para não se sentirem deslocados do mundo em que vive, na verdade preferia ficar em casa jogando vídeo-game ou lendo um livro interessante. Uma pessoa tímida, de poucos amigos, pouco comunicativa que bebia de vez em quando, não gostava de fumar e escutava música clássica. Nunca se dava bem com as garotas, talvez por ser magrelo, barba por fazer e cabelo bagunçado. Sabia que o seu maior inimigo em relação às mulheres sempre foi seu jeito tímido, mas não sabia como ser diferente.
Acabou entrando na festa com a intenção de modificar seu roteiro, ao contrário do que esperava estava com um cigarro aceso na mão, mas não havia bebido nada. Avistou de longe uma garota de cabelos longos que usava uma calça branca e parecia meio deslocada do resto da festa. Não sabe como ou porque, mas viu nela alguma coisa que iria ajudá-lo. Levantou-se e foi dirigindo-se a parte mais escura da festa, foi afastando as cadeiras e mesas que estavam em seu caminho. Chegou perto da última mesa do salão, sentou-se ao lado da garota das calças brancas, ela parecia distraída, não havia notado a presença dele ainda. Pegou na mão da moça e a chamou para dançar.

Sem pensar muito no que estava fazendo ela foi se levantando e os dois começaram a dançar ali mesmo, na parte escura da festa, onde poucas pessoas poderiam vê-los.
Ele parecia confuso com o que acabara de fazer, nunca imaginou tirar uma menina para dançar, nunca dançava muito, ficava timidamente ensaiando uns batuques das músicas que ouvia.
Ela estava assustada, nem havia notado a presença do garoto quando notou que já estava dançando com ele, a música alta e agitada não a deixava pensar direito, foi deixando-se levar pela melodia e pelos braços do rapaz misterioso.

A música acabou ela não sabia o que fazer, ele a abraçou. Ele sabia que alguma coisa estava errada, não sabia da onde havia surgido tanta coragem. Ela não estava entendo porque ainda não havia falado uma palavra com ele. Os sentimentos de ambos misturavam-se, eles sentiam-se em harmonia, os corpos juntos, os braços entrelaçados, não foi preciso muitas palavras ou explicações. Soltaram-se, ele gaguejou alguma coisa, um som que não foi possível traduzir, ela puxou seu copo de cima da mesa e tomou um grande gole de cerveja quente.
Da mesma maneira com que eles acabaram dançando os dois foram se distanciando, viraram-se de costas um para o outro, cada um seguiu seu caminho.
Ele até a porta de saída, ela foi até a janela. Ele carregava a certeza que aquela seria a mulher mais importante de sua vida, ela sabia que algumas respostas para suas angustias haviam sido encontradas naquele rapaz.
Nunca mais viram um ao outro.

Ana Ferraz

quarta-feira, 2 de março de 2011

Quinquilharias do antigo blog parte III

Mais um texto do "ouse-ouse-tudo". Eu tinha 18 anos quando escrevi nessa época eu lia muito Caio Fernando Abreu e ouvia Los Hermanos de mais, qualquer semelhança é mera inspiração hehehe





Um filme no close pro fim


“Olha aqui eu preciso falar com você, desse jeito não dá mais a gente não consegue se entender, parece que os dois mudaram e não estou conseguindo agüentar essa situação, precisamos conversar, quando você chegar em casa, me liga! Ainda te amo.”

Desligou o telefone, aquela mensagem tinha o deixado meio zonzo, as mãos começaram a suar e sentia que sua garganta estava querendo expelir alguma coisa, não sabia direito se era choro, grito ou se estava passando mal. Aquela sensação durou alguns minutos, sentou-se no sofá e ficou parado sem se mover ou expressar alguma reação em relação a nada, muito menos ao que acabara de ouvir, uma mensagem na secretária eletrônica, forma cruel de descobrir que só amor as vezes não é suficiente.
Passada a sensação inicial, caminhou em direção a geladeira, morava em um conjugado, mas que na verdade era uma sala comercial que seu pai tinha lhe dado de presente de formatura, um futuro escritório de advocacia que acabou virando casa. Abriu a geladeira e havia poucas alternativas, uma jarra com água, uma lata de refrigerante, dois pedaços de pizza velhos, uma garrafa de cerveja, um ovo e um pé de alface. Agarrou a primeira coisa que viu - foi a jarra de água -, encheu um copo e sentou-se novamente no sofá.
Pensou em muitas coisas, contrariando o clichê ele não pensava nos momentos felizes que tinham vivido juntos ou na viagem à Holanda, dois mochileiros em busca de aventura na terra da liberdade para comemorar dois anos de namoro, ele pensava em filmes que havia visto, nas músicas que costuma ouvir e tudo o que ele lembrava era o “Ainda amo você” que soava forte em sua cabeça, realmente o amor é um misto de desejos, sonhos, promessas de paraíso que dividem espaço com dores sem remédios, pranto, depois vira nada, uma lembrança qualquer.
Ele também tinha coisas a dizer a ela, pegou o telefone, disposto a ligar, discou o número da casa dela, sabia que no meio da tarde ela não estaria lá, queria deixar seu recado, ele precisava dizer algumas coisas e não queria resposta imediata, queria ser cruel também.
“Eu acabei de ouvir o seu recado, é realmente temos muitas coisas para resolver, preciso falar também, quero dizer pra ti muitas coisas, coisas que normalmente não se diz não quero me entregar assim, não poderia falar o que quero, pois depois que eu dizer você me terá em suas mãos, mas vejo que esse é o último suspiro que nosso amor pode dar então eu preciso te falar, mas não sei como...”.
Desligou o telefone, não teve coragem de falar, não poderia falar, era complicado para ele, era amor indo embora e isso não é comum, duas pessoas que se amam deveriam se bastar, mas a vida é cruel, muito mais cruel do que ele ou ela poderiam ser. Ele era mais sentimental que ela, por isso não sabia o que fazer, ele precisava dizer todas as coisas que estavam engasgadas em sua garganta, só não sabia como, também tinha medo da reação dela, era difícil despir-se de todo seu orgulho e entregar seus sentimentos para uma mulher, mesmo que ela fosse aquela, a sua mulher.
Duas horas depois o telefone tocou, era ela, disse que precisava encontrar com ele, mas não queria que fosse na casa de nenhum deles. Marcaram então o encontro em um parque da cidade. Ele chegou antes dela, sentou-se em um banco, o céu era estrelado, a brisa da noite era fria, não havia quase ninguém por perto, ele sabia que aquele seria uma conversa definitiva, apenas os dois e o céu estrelado como testemunha.
Quinze minutos depois ele a avistou de longe, seus cabelos negros contrastavam com sua pele muito branca, o olhar da moça não era muito diferente do dele, os dois tinham olhares inseguros, duvidosos, sabiam que aquele momento seria crucial para resolver o futuro daquele amor, que ainda queimava, mas que não bastava.
Ela se aproximou, deu um tímido beijo nos lábios do moço, que tremiam e era possível ver sua testa suando, a insegurança era clara na face daquelas duas almas. Eles sentaram-se no banco e nenhum dos dois falou se quer um apalavra, passaram-se muitos minutos e nenhum som poderia ser ouvido. Até que ele colocou o braço em volta dos ombros dela, ela se aproximou e abraçou-o também, ficaram ali abraçados por muito tempo. Eles não sabiam o que estavam fazendo, eles se amavam, mas não davam certo, talvez os três anos de namoro sem nenhuma briga ou pausa não mostrava realmente o que eles viviam, era por isso que eles estavam abalados com aquilo, ela teve a coragem de falar que as coisas não iam bem e ele tinha a coragem de tentar mudar as coisas, mas nenhum era corajoso o bastante pra falar o que estavam sentindo, ali sob o céu estrelado numa noite de brisa fria.

“Eu não sei como falar o que eu preciso, por favor, não fale nada até eu terminar, não quero ser cruel, mas é necessário que eu diga antes que essas palavras me sufoquem. Aquilo que eu temia aconteceu, sofro por saber que nosso amor é pouco para deixarmos juntos, mas eu não sei mais porque em ti eu consigo encontrar o caminho certo de seguir, se saíres da minha vida agora não sei para onde ir, talvez tu não sintas a mesma coisa que eu. Eu te disse que hoje eu me daria pra ti, depois que eu falar tudo o que preciso, me terás em suas mãos e eu tenho medo,você é meu grande amor, te imploro se vais embora vá logo, meu coração não sabe lidar com isso, eu não posso te perder a não ser que tu queiras. Amor não se mede e eu não sei dizer o quanto te amo, mas eu sei que ele não se basta pra gente ser feliz. Se me deixares agora, eu volto, não sei ainda quando, mas eu vou roubar de novo teu coração.”

Ele se entregou a ela de forma que não poderia mais voltar atrás, aquelas palavras penetraram fundo no coração confuso da moça. Ele parou de falar, no mesmo momento ela começou a chorar, um choro tímido, munido de sentimentos. Enquanto ela chorava, ele se enchia de esperanças, aquele choro só podia significar que ela queria ficar com ele. Mas não foi bem assim, ela não falou nada, apenas abraçou mais forte, ele retribuiu a força do abraço com um beijo na testa. “Ainda te amo”, foram as palavras que saíram da boca dela naquele momento, um ainda te amo, baixinho com a voz tremula por causa do choro. Um beijo amoroso e demorado aconteceu. As estrelas testemunhavam aquele momento, era uma conciliação, de um casal que nunca tinha rompido seus laços, onde o amor fluía intenso, mas só amor não era o bastante. Aquele foi o momento auge, ele lembrou dos filmes novamente e era tudo muito parecido com o cinema.
Depois daquela noite, ele não era mais o mesmo, metade dele ela tinha levado, a outra metade prometia um dia se tornar completa, só o amor não foi suficiente.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Quinquilharias do antigo blog parte II

Mais um texto tosco, inocente e clichê do antigo blog, mas no fundo eu gosto deles.
Esse eu fiz quando tinha 17 anos, acho que eu já era bebada naquela época!



Aquele Bar

Ana Ferraz

Sentei no banco da praça e fiquei ali parada ouvindo o som dos pássaros, era como se eu pudesse fazer o tempo parar e só escutar a canção da natureza cantada por aves que eu costumava matar a pedradas na minha infância nas ruas de terra vermelha lá pras bandas da terra do Getúlio.
Como pôde acabar dessa maneira, um lugar tão feliz que me aconchegava nos dias de dor e nos dias de amor, é complicado achar um outro igual a esse, normalmente eles são arrumados e exigem certa sofisticação que eu nunca consegui ter, não por não saber o que é isso ou por vir de berço humilde, mas, por não querer isso pra mim, por ter feito a escolha de ser assim menos ligada a essas tendências da moda e de etiqueta, pode parecer bobagem, mas a sociedade muitas vezes exige que mulheres tenham uma preocupação excessiva com essas questões, mas eu não era e continuo não sendo.
Naquele dia eu sofria a dor de perder um amigo querido, amigo assim como eu, sem glamour, mas com uma “finesse” que atiçava a curiosidade de muita gente elegante que preferia o irmão rico do meu pobre amigo. Quantas histórias desmoronaram junto com aquele prédio, quantas discussões foram enterradas sob os escombros mofados.Eu sentia a perda de uma segunda casa e acho que é por isso que eu não conseguia escutar o barulho das pessoas que atravessavam a praça com suas pastas e mochilas indo e vindo com pressa que não escutavam nada ao seu redor e muitas vezes nem viam os pássaros a sua frente saindo em revoada para não serem pisoteados por aquelas almas apressadas e desatentas que esperavam apenas cumprir seus horários e chegar em casa para tomar um banho e ver a novela. Mas eu, continuava lá encantada pelo som da praça, o som dos pássaros que era acompanhado com o vento que batia nas árvores e que não deixavam a correria alheia atrapalhar minha dor de perder o meu lugar, o meu bar, a minha casa.
Lembro muito bem de paixões que eu vi nascer naquele bar, amigos que eu fiz, amores passageiros que eu revi e estórias fantásticas que muitas vezes eu pensei em viver, enquanto sentava sozinha na mesa mais ao fundo escutando alguma música que embalava meu pensamento pra longe. Ah como era bom, eu ia a Paris andava pelas ruas geladas da cidade luz com muita roupa e sentava em um café e ficava lá bebendo um bom capuccino e baforando a fumaça amarga de um cigarro barato. Até que um garçom me perguntava o que eu queria beber e eu então percebia que ainda estava no bar, pedia minha cerveja, como uma boa cidadã brasileira, e esperava o tempo passar ou algum amigo pedir pra sentar ali na mesa, enquanto o som embalava as noites que terminavam com a mesa cheia de gente, copos, cinzeiros e muita poesia que me faziam voltar no dia seguinte para continuar um papo que ficou pela metade ou conhecer alguém que veio de um lugar totalmente diferente ou ali do bar da outra esquina procurando novas caras, era assim, quase sempre assim, porque nunca uma noite era igual a outra, sempre haviam novas caras, novos assuntos e novas cervejas porque afinal cada noite era um nova noite uma pagina em branco que não poderia ser escrita com as mesmas história da pagina anterior. Essa magia que ele tinha, a facilidade de juntar pessoas diferentes em harmonia que não permitia que houvesse brigas, apenas ríspidas trocas de teorias e algumas vezes de controvérsias, mas nunca em todos esses anos houveram insultos e muito menos agressões, aquele era um lugar de paz, onde todos entravam em busca de crescimento ou as vezes de casamento. E foram tantos os casamentos que passaram por aquele lugar, uns começaram lá dentro, outros acabaram lá fora, mas foram enterrados em alguma mesa em um grande e gelado copo do bar.
Naquele dia era apenas uma montoeira de tijolos e cimentos que me levavam até aquela praça. Acendi um cigarro e fiquei um tempo olhando os escombros do bar de longe, nem os pássaros eu ouvia mais apenas aquela boa e velha nostalgia que me acompanhava naquela tarde de outono. Uma folha caiu sobre meus ombros, foi como se algo tivesse caído dentro de mim, caído num escuro e profundo vazio, a falta de um pedaço de mim que me fazia rir e chorar, agora eram apenas as lembranças daquele lugar que me acompanhavam na tarde fria de um outono cinza que parecia muito com inverno, inverno que me levava a Nova Iorque, Londres, Coimbra, lugares que eu pensava em visitar em várias noites de solidão na mesa ao fundo do bar da rua da praça.
Lembro-me agora da noite em que conheci Regina, uma moça loira de olhos azuis que ofuscavam a sua beleza, e havia muita beleza, só podia ver os olhos daquela moça quando ela entrou pela porta do bar cantarolando em voz alta para quem quisesse ouvir “Eu bebo sim e vou vivendo, tem gente que não bebe e está morrendo”.
Ela sentou no banco ao lado do meu e pediu fogo, fumava uma cigarrilha que cheirava a cereja e bebia um rum barato que me dava até náuseas de pensar em bebê-lo.
Regina era assim como eu, uma solitária moça de quase trinta anos que tinha desistido do amor e vivia transpirando poesia sem destinatário, mas que tinha uma alma linda e muita sabedoria. Trabalhava em uma repartição pública, mas não odiava o que fazia, não sei como ela não se sentia presa naquela sala lotada de papeis e ácaros, em um prédio cinza e cheio de vazamentos que o governo proporcionava aos seus guerreiros funcionários públicos.
Passei a noite conversando com ela, me parecia uma pessoa feliz, talvez eu tenha pensado que era triste e solitária, que desistiu do amor por não ter ninguém para amá-la, mas não era assim, ela era uma moça alta, loira de olhos azuis, com um belo corpo escondido em um vestido longo e um casaco pesado, mas o que mais chamava a atenção nela não era sua elegância ao se vestir muito menos a figura física de uma bela mulher, mas sim o que ela carregava no fundo de seus olhos azuis, tinha uma ternura no olhar que aconchegava quem estava na mira daqueles olhos, uma sensibilidade que poucas pessoas tinham, parecia que ela conseguia ler as expressões do meu corpo ao falar com ela e simplesmente entendia tudo o que eu deixava subentendido, eu sempre gostei das entrelinhas, e ela entendia isso sem que eu precisasse dizer por inteiro o que passava na minha cabeça, eu me perguntava por que uma pessoa assim optou por ser só, já que enquanto conversávamos sobre artes e política social os homens que rodeavam a nossa mesa, bebendo algum destilado forte demais para uns, que tinham que misturar com gelo ou fraco para aqueles que tomavam tudo num gole só sem água, gelo ou refrigerante para amenizar o amargo gosto que queimava a garganta e esquentava o coração frio e também solitário, daqueles homens que de longe não tiravam os olhos de Regina. Não era por falta de opção que ela estava naquela situação que a levava a ser considerada por suas irmãs a tiazona da família, o mistério que rondava aquela mulher era um imenso conglomerado de paixão que submergia numa vontade de liberdade que não a permitia ser diferente do que era e ela era feliz, simplesmente uma pessoa feliz, por conseguir ser ela mesma em toda solidão que ao contrário do que muitas pessoas acham é maravilhoso sentir-se completo na solidão é estar bem consigo mesmo. Mas nem todas as pessoas que passaram por aquelas mesas estavam felizes ou eram tão lindas por dentro e por fora como Regina, o mofo daquelas paredes tinha uma boa porção de sofrimento e dor de amores mal acabados, perdas irreparáveis e muita mágoa guardada que muitas pessoas entravam ali com a intenção de afogar seus fantasmas em copos de bebidas e em porções de comidas gordurosas, eu mesma já tinha entrado no bar para afogar uma briga de família, pois por mais intimista e solitária que eu possa parecer eu tenho família e como todo clã o meu era carregado de amarguras e sentimentos, mas na maioria das vezes eu afogava minhas frustrações naqueles copos suados e cinzeiros lotados, depois ia para casa e ria, ria muito do papel de moça frustrada que eu me colocava.
Mas não só de tristeza e felicidade vive uma sociedade e posso dizer que em um bar você pode retratar a sociedade em que vivemos, porque o bar é uma entidade social que junta muitas pessoas e assim retrata diversas realidades, por isso aquele bar era incrível, pois não se limitava a apenas uma parcela da sociedade, o simples engloba um todo que o sofisticado limita. Começava a anoitecer e eu continuava na praça, as pessoas já não passavam por ali com tanta freqüência e os pássaros já haviam parado de cantar, mas eu continuava ali sem saber para onde ir, já não tinha um destino certo. Levantei e andei em círculos pela praça, a noite já caia e as estrelas me acompanhavam no frio do outono, que mais parecia inverno, o frio me levava trocar a cerveja gelada por um vinho que me fazia companhia nos dias e noites para esquentar.
Sai da praça fui até uma venda que ainda estava aberta, comprei uma garrafa de vinho e fiquei por um tempo perdida sem saber para onde ir, dei meia-volta e segui em direção a praça, sentei no mesmo banco que tinha passado o fim de tarde, abri a garrafa de vinho vagabundo, acendi um cigarro, fumei demais, bebi demais e sorri demais naquela noite, tinham me tirado meu bar mas eu tinha descoberto a paz que é trocar minha solidão pela companhia das estrelas.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Quinquilharias do antigo blog

Resolvi postar aqui algumas quinquilharias que estão no meu antigo blog Ouse tudo.
Então vou começar com um dos meus textos, lá quando eu tinha uns 17 ou 18 anos, toscos e inocentes textos!



Longe de mim



Longe de mim, acho que o amor passa longe de mim.
Chove, chove, chove muito lá fora, eu posso ver através do vidro os pingos caindo no asfalto cinza e molhado. Na sala a televisão sussurra baixinho, frases que eu não compreendo e o cinzeiro cheio me dá mais vontade de aumentar as garrafas vazias sobre a mesa. Abraçada ao travesseiro eu penso em coisas como: porque a gente arruma a cama para dormir se em segundos estará desarrumada ou porque usamos pijama se ninguém nos vê dormindo. Então lembro que eu não uso pijamas e há tempos nem a cama arrumo. Um clima de nostalgia que se formara desde aquele dia em que tudo acabou e a fumaça do cigarro traz no ar um sentimento de solidão que penetra fundo na minha alma, me faz sentir medo. Nem meus livros me animam mais, aquele disco dos Beatles não me faz cantar e muito menos as antigas fotografias melhoram o meu humor, eu sou uma alma só num mundo deserto de pessoas especiais.

Era agosto, o frio da cidade me dava esperanças de que as coisas iam melhorar, eu amava o frio, era lindo passear no fim de tarde sentindo o vento frio cortar meu rosto enquanto o sol tímido se despedia no horizonte, eu sabia que nos encontraríamos mais tarde, a música rolaria solta, os Beatles embalariam nossos papos interessantíssimos sobre teorias e historias das quais os personagens não éramos nós. Os copos cheios se responsabilizariam pelas gargalhadas exageradas, a fumaça dos cigarros dariam um clima mais aconchegante e a luz baixa nos tornaria mais íntimos, como se precisasse. Éramos como velhos amigos, sentados conversando sobre coisas banais, nos permitíamos um contato físico e sentimental que só se tem entre pessoas com almas diferentes, puro, amoroso e protetor. Tudo era tão sublime e eu tinha a certeza que o amor estava ali presente nos gestos, nas palavras nos olhares que penetravam fundo na alma do outro sem que um sentimento desconfortável de constrangimento tirasse o brilho daquele momento, em que estávamos totalmente entregues um ao outro.
Mas naquele dia daquele mês de agosto algumas coisas haviam mudado. Desde então nossos olhares não se cruzavam mais, os assuntos não fluíam e éramos como estranhos um para o outro, sem explicação lógica para essa mudança de sentimento, apenas a sensação de que as coisas estavam erradas, como se os planetas tivessem saído de órbita ou o sol mudado de lugar, não tinha explicação e não tínhamos idéia de como isso acontecera, mas aconteceu.
Aconteceu naquele mês de agosto. Os encontros começaram a se tornar raros, nem olhávamos mais um para o outro, o disco não tocava mais, o sonho tinha acabado e junto com ele todo aquele sentimento sublime dava lugar a um sentimento cruel que doía, doía fundo numa alma vazia. Bebíamos mais, fumávamos mais, mas não se escutavam gargalhadas e o clima era frio e distante. Até o dia que passei por ele na rua e um pequeno gesto com a mão selou o fim de tudo.

Longe de mim, eu tinha certeza que o amor passava longe de mim.
Os dias eram intermináveis, já era Novembro e eu continuava só, no mesmo apartamento, com a mesma luz baixa, mas o triplo de garrafas sobre a mesa, os maços de cigarro vazios já faziam parte da decoração, meus livros estavam jogados pelo chão, eu tentava lê-los, mas não tinham mais graça, na vitrola os Beatles tinham sido trocados por umas sinfonias tristes de Wagner que me traziam pensamentos diferentes, eram mais ferozes, eu tinha vontade de invadir a Polônia, a Escócia, e Ucrânia, transforma-los em paises livres do sofrimento de sua história, mas na verdade a Polônia, a Escócia, a Ucrânia e principalmente a Rússia, eram eu mesma, fria, enorme e vazia.
Longe de mim, o amor está longe de mim.

Em Janeiro a situação era praticamente a mesma, eu continuava no mesmo lugar, a luz baixa era fraca e as garrafas já ocupavam metade da sala, meus dias eram tristes, eu começava a ter medo, trocara os discos pela televisão, mas os sussurros que saiam dela eram mais vazios do que a minha alma, preferia a companhia dos livros fechados por falta de leitura e os discos jogados pelo chão do que o vazio da televisão. Já havia esquecido a Polônia, a Escócia era apenas uma vaga lembrança, a mais marcante, pois eram de lá os uísques mais saborosos e a minha companhia se resumia neles.
Os meses de verão não eram os meus preferidos, o calor me cansava, preferia o frio de Agosto, que apesar de me trazer lembranças daquele sentimento feliz me trazia esperança de que o próximo agosto seria diferente, mas a realidade me incomodava, saber que ainda era janeiro me fazia pensar nas plantas sedentas e nos animais calorentos que assim como eu queriam água fresca para dar um ânimo para recomeçar, mas era janeiro e a água era quente e eu não achava ânimo para nada.
Longe, ainda mais longe de mim, o amor estava longe de mim.

Chove, ainda chove, os pijamas e as camas desarrumadas tentam disfarçar outros pensamentos, tento me esconder atrás de sussurros televisivos para não encarar a realidade que eu descobri há um ano atrás. Não consigo aceitar, não consigo me livrar, não consigo aprender a conviver com isso. Preciso aprender a viver sem o amor, não é fácil, a vida não é fácil, mas eu ainda tenho esperança, mas preciso me erguer, perdi um ano entre garrafas e cigarros, invadindo a Europa, desarrumando camas, trocando Beatles por Wagner. Um ano, é agosto, chove, eu vejo isso através do vidro, os pingos tocam suavemente o asfalto cinza e molhado, a luz baixa ilumina os livros empoeirados pelo chão, pego o Magical Mystery Bus, os Beatles voltam a tocar, eu me reanimo. Devagar começo a mexer nos livros do chão, tiro a poeira da capa dura e escura, não consigo ver direito o nome do livro, o tempo apagou até isso. Reanimo-me, volto a ler, escutar os discos, vejo que foi um ano perdido, mas não um ano inútil. A culpa de eu estar assim é minha, não do amor. Hoje eu descobri que longe, longe do amor, acho que eu passo longe do amor.


Ana Ferraz

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Quinquilharias nem um pouco psicodélicas

Essas férias tem sido bem produtivas até, mesmo passando o maior tempo delas em Passo Fundo eu acho que tenho conseguido fazer e pensar muitas coisas que eu estava precisando. Acho que a nuvem negra de loucura, angústia e confusão que pairava sobre mim desde outubro acabou e isso me faz muito bem. É só dar uma lida nos textos a baixo que tudo isso está presente, como se eu gritasse pra mim mesma que precisava sair daquilo que estava me fazendo mal, acho que finalmente consegui.
Esses devem ser aqueles momentos que eu falei a muito tempo atrás, as quinquilharias psicológicas, realmente elas vão te sufocando e chega uma hora que tu precisa botar tudo pra fora, fazer uma limpa mesmo. Sei que muita gente que eu conheci nesse tempo nunca mais vai querer chegar muito perto de mim, devem me achar um guria insana, não que eu não seja assim de vez em quando, mas realmente eu extrapolei da loucura nos últimos tempos, uma loucura interna que espirrou um pouco em quem esteve por perto, mas o saldo disso tudo é positivo. Repensando tudo isso eu conclui que realmente eu sou a favor de limpezas internas, não tô dizendo que são fáceis, mas são necessárias. Sentir que as coisas podem ser leves, sem tanta necessidade de acontecerem como a gente imagina é a forma mais tranqüila de viver esses momentos, se esconder na porraloquice pode ser uma saída temporária, mas não resolve muitas coisas.
Por a quinquilharia pra fora é abrir espaço pra poder encher a cabeça e o coração de coisas novas, não adianta querer socar mais coisas onde já tá cheio, a falta de espaço vai fazer com que algumas coisas transbordem e tudo se desorganize. É necessário tempo pra poder organizar e deixar as quinquilharias de uma forma confortável, se não é impossível renovar, renovar-se.
O que um tempo pra cabeça me trouxe de bom?
Tudo isso, além de muitas idéias novas e necessidades novas de viver mais tranqüila, mais sensata, mais de boa como sempre fui, mas sempre com a pitadinha de loucura que me é peculiar.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Quinquilharias de ano novo

O que será? Que será?
Nunca soube muito bem o que será isso, que estão falando alto pelos botecos, que vive na idéia desses amantes, que juram os profetas embriagados...
O que será?
Muitas coisas podem ser, mas essa é uma pergunta que não precisa de resposta ela vai sendo respondida com o tempo, os acontecimentos dizem o que vai ser. Pra um começo de ano essa é uma pergunta que deve andar em muitas cabeças e bocas, tocas e alcovas e talvez seja feita apenas pra segurar um pouco a ansiedade em relação ao o que será da vida.
Não quero me alongar muito nisso, cada dia eu pioro um pouco minha situação nesse blog, que certamente só eu leio. Alguns textos melancólicos demais, piegas, clichês sobre idéias e pensamentos que provavelmente sejam apenas meus, mas eu gosto disso, esse é um lugar pra eu botar as coisas pra fora, como diria o Caio "escrever é colocar o dedo na garganta" eu concordo com ele, apesar do fato de ele peneirar depois e eu não.
Nisso eu me perco um pouco, fujo do tema sem perceber que o tema segue presente, assim como eu escrevo sobre as coisas que passam na minha cabeça sem saber muito bem o porque, eu espero com ansiedade o que será da vida pra mim. Talvez não seja essa a questão certa, pode ser melhor começar a pensar o que eu quero fazer da minha vida pra mim, uma redundância necessária pra compreender a amplitude do que eu quero dizer.
O que será?
Eu ainda não sei, mas eu posso ajudar a descobrir. Não é só sentar no sofá e esperar a vontade passar, é preciso seguir fazendo as coisas, decidindo que rumo tomar, independente de ser certo ou não, mas alguma decisão sempre é tomada.
"Caminante, no hay camino. Pero el camino se hace al andar". Talvez essa seja uma das respostas pra toda essa dúvida da madrugada ou mais uma vez eu esteja em um momento de catarse onde eu jogo tudo aqui sem querer fazer muito sentido.
o que será?

Sei lá!

Acho que vou relaxar um pouco, esperar no sofá, correr atrás das coisas também, juntar tudo isso em meio a botecos, mercados, risos, sinos sem vergonha e sem juízo.
Que seja um ano doce e o resto que seja o que será.